sexta-feira, 3 de julho de 2009

 

Garantindo seu anonimato na Internet

No mundo cada vez mais interconectado e aberto da Internet, não é fácil preservar o seu anonimato. Seja de forma explícita (via redes sociais, blogs, Twitter, cadastros em lojas, etc.) ou implícita através do seu endereço na Internet (o endereço IP) armazenado em praticamente todo site que você visita, o monitoramento é quase onipresente. Engana-se completamente quem acha que está livre de ser identificado ao simplesmente criar um e-mail sem referências pessoais e um blog apócrifo. Seu anonimato, e muito menos sua privacidade não estão garantidos na Internet.

Mas é possível reverter este quadro. Não é tão simples como na ilusão de muitos: Requer cuidados não só com o uso adequado de ferramentas apropriadas para tal finalidade mas também atenção à maneira como sites são utilizados, e cooperação de outros usuários.

Por isto, o que vou sugerir é uma lista não exaustiva de recomendações. Ela faz parte de uma estratégia, dentre várias outras possíveis, que combina ferramentas e certos padrões de uso da Internet para minimizar ao máximo a possibilidade de identificação do usuário. Note portanto que, infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de vista), não é possível garantir que seu anonimato será preservado para sempre. Embora com estas medidas seja praticamente impossível identificá-lo, brechas de segurança, atualizações de software, quebras de sigilo, e a utilização displicente da Internet são alguns dos problemas dinâmicos impossíveis de serem previstos ou antecipados em sua plenitude.

Assim, siga as recomendações a seguir com cautela e faça uso responsável de seu anonimato:

1) O primeiro passo é fazer o download de um novo navegador, independente do que você usa atualmente e que já possui um enorme histórico das suas atividades na Internet. A melhor opção no momento é provavelmente o Tor Browser Bundle. Este navegador é, na verdade, um pacote contendo o Firefox Portable 3.0 e os componentes necessários para executação do Tor.

Do próprio site do projeto, o Tor é definido como:
Tor é um projeto de software que protege você contra análise de tráfego, uma forma de vigilância na internet que ameaça a liberdade pessoal, a privacidade, negócios confidenciais, relacionamentos e a segurança de Estado. Tor protege você distribuindo suas comunicações ao longo de uma rede de nós rodadas por voluntários em volta do mundo: isso previne que alguém monitorando sua conexão com a internet aprenda quais sites você visita, e previne que os sites que você visita saibam onde você está, sua localização física. Tor funciona com muitas aplicações existentes, incluindo navegadores, programas de mensagens instantâneas, login remoto, e outras aplicações baseadas no protocolo TCP.
A vantagem de baixar o pacote do Tor é que você não precisa instalá-lo nem configurá-lo. Após fazer o download, basta extrair os arquivos em qualquer pasta de sua preferência (inclusive num pendrive) e executar o arquivo "Start Tor Browser.exe".

Pronto! O programa irá primeiro se conectar à rede Tor e logo em seguida irá iniciar o Firefox indicando que você está usando-o corretamente. Note também na barra inferior, canto direito, o status atual do programa.

Página inicial do Firefox após o primeiro acesso

O primeiro acesso pode demorar um pouco. É normal. O Tor utiliza a interface gráfica Vidalia para mostrar a você o status da conexão. Pode demorar alguns minutos mas você pode clicar no botão "Message Log" para acompanhar o que está acontecendo.


A interface Vidalia exibindo o status de conexão com a rede Tor

Outra opção mais trabalhosa é baixar separadamente o Firefox Portable, uma versão customizada do Firefox, e configurá-lo para suas necessidades. Instruções para este caso e outras alternativas - em inglês - aqui.

2) Deste ponto em diante, o seu Firefox Portable será utilizado para a navegação anônima, sempre que você julgar necessário. Mas primeiro é preciso configurá-lo melhor.

A partir de agora, sempre que quiser garantir o seu anonimato, utilize o Firefox através do arquivo Start Tor Browser.exe. Não utilize o seu Firefox padrão (ou qualquer outro navegador) pois são duas versões diferentes e a sua versão original não se conecta à rede Tor.

O uso do Tor já garante seu anonimato em praticamente todos os casos por mascarar o seu endereço IP. Navegando através desta rede, é praticamente impossível para alguém descobrir sua identidade através do endereço. Entretanto, o Tor não faz milagres e o próprio site do projeto faz vários alertas.

Para se proteger de alguns destes problemas, as configurações que seguem são importantes como precauções adicionais.

Com o Firefox aberto (o da rede Tor), acesse o menu Ferramentas > Opções (Tools > Options, em inglês), e selecione a guia Privacidade (Privacy) e, nela, faça as seguintes modificações:
Nota: Caso queira utilizar Cookies em alguns sites, utilize o complemento CookieCuller. Ele permite que você exclua apenas os cookies indesejados mas lembre-se que isto pode configurar uma brecha para sua identificação.


Configurações de Privacidade do Firefox

Ainda na janela de opções, selecione agora a guia Conteúdo (Content) e faça as seguintes modificações:
Sites contendo JavaScript ou objetos Java podem ter falhas de segurança ou código malicioso capazes de revelar sua identidade na Internet independente de qualquer outra configuração que você faça. Eles podem inclusive enviar dados para outros sites sem utilizar a rede Tor.

3) Uma vez definidas as configurações básicas do navegador, é preciso configurar complementos (add-ons) para aumentar a sua segurança e restringir ainda mais a possibilidade de sua identificação. Por isto, acesse o site de complementos do Firefox, faça o download e configure os seguintes complementos:

Configurações do complemento BetterPrivacy

4) De posse do seu acesso anônimo, é preciso também criar uma identidade anônima inteiramente nova. Invente um pseudônimo e crie uma conta de e-mail nova. Mesmo utilizando o Firefox configurado conforme instruções acima, não faça referência a nenhum dos seus dados pessoais reais. Durante seu acesso anônimo, não acesse suas contas de e-mail antigas, não utilize redes sociais com seus dados pessoais, e não faça referências próprias em caixas de comentário ou no Twitter. Mesmo que você não possa ser diretamente identificado, certos comportamentos e hábitos deixam pistas.

Para realizar operações habituais na Internet com seus dados reais, e que você já fazia antes, utilize o seu navegador padrão. Passe a ver o seu acesso à Internet como contendo dois perfis, um real e outro anônimo, e não misture-os em hipótese alguma.

5) Ao publicar um texto em blog, prefira plataformas independentes e no exterior. Sugiro que utilize o Blogger ou Wordpress por conta da simplicidade de uso e também porque eles permitem que a data para publicação de um texto seja agendada. Desta forma, o seu texto não será publicado imediatamente após a sua utilização da Internet, dificultando ainda mais o trabalho de alguém que esteja monitorando o seu blog para tentar te identificar.

6) Apague arquivos do seu computador que possam conectá-lo ao que você publica anonimamente na Internet. É importante não deixar rastros. Por isto, tenha certeza que seus dados pessoais não sejam usados contra você.

Apagar os arquivos requer mais que a sua exclusão. Também não simplesmente mova-os para a lixeira. Existem programas apropriados capazes de excluir por completo um arquivo do seu computador. Utilize, por exemplo, o Eraser ou Ccleaner.

7) Peça a outras pessoas para também utilizarem a rede Tor.
A rede Tor se beneficia da quantidade de pessoas utilizando-a. Quanto mais a usam, mais fácil fica mascarar o seu endereço IP. Além disto, fica menos evidente também que certos usuários estejam usando a rede apenas com objetivos específicos.

O uso despretencioso da rede Tor cria um tráfego de cobertura e dificulta o monitoramento de atividades específicas por parte de alguns usuários.

8) Informe-se. Utilize este guia apenas como ponto de partida. Para manter o seu anonimato, é preciso manter-se atualizado o tempo todo de atualizações de software e técnicas de uso da Internet.

Alguns links servem para você explorar melhor o assunto:
Também não custa repetir: use o seu anonimato com responsabilidade!

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segunda-feira, 8 de junho de 2009

 

O uso de e-mails e o blog da Petrobrás

Se os jornais ainda alimentam o sonho de garantir furos de reportagem, então eles não devem mandar e-mail. Que liguem para as pessoas ou marquem uma reunião ou, melhor, que façam os envolvidos assinar um contrato de confidencialidade.

Simplesmente escrever num e-mail a baboseira "este deve ser lido apenas pelas partes envolvidas" ou algo do tipo não garante isto. Eu não posso ser obrigado a aceitar uma confidencialidade depois de ter lido o conteúdo. Preciso ser informado ANTES. Sem contar que não creio que estas notas de rodapé (muitas vezes maiores que o próprio e-mail) sejam instrumentos jurídicos válidos.

Além do mais, e-mail é praticamente algo público. Quando envio uma mensagem, o mesmo trafega por diversos servidores, dezenas deles as vezes, de forma completamente aberta. Qualquer sujeito um pouco mais mal intencionado pode facilmente interceptar milhares de e-mails diários e descobrir aqueles que lhe interessa com filtros. Se no e-mail você quer garantir confidencialidade, deve encriptá-lo!

Se é um furo, que o jornal apure corretamente os fatos e invista o tempo necessário para construir um bom texto. O que o blog da Petrobrás está mostrando é que, pelo visto, nenhum dos grandes jornais tem feito isto. E agora choram feito menino emburrado pego numa mentira.

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sábado, 6 de junho de 2009

 

A lei contra o compartilhamento de arquivos também quer chegar ao Brasil

(publicado originalmente em uma caixa de comentários do blog O Biscoito Fino e a Massa)

Estava demorando mas um deputado "finalmente" teve a "brilhante" idéia de copiar a recém aprovada lei francesa contra o compartilhamento de arquivos em redes p2p:

http://info.abril.com.br/noticias/internet/deputado-quer-banir-conexao-de-quem-usa-p2p-05062009-37.shl

O mais interessante, entretanto, é acompanhar como andam as repercussões na França. Mesmo aprovada, a Lei aparentemente já nasce morta por ser inconstitucional, por causa das várias possibilidades de não se identificar o usuário, pela sua tremenda impopularidade, e, o melhor, porque o Ministro da Cultura de lá está possivelmente envolvido com a grande mídia: http://www.boingboing.net/2009/05/12/french-three-strikes.html

Como informou o Bento, o projeto de lei brasileiro, do deputado Geraldo Tenuta Filho, do DEM/SP, pode ser "apreciado" aqui: http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=437323

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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

 

Chrome: Por que o Google introduziu mais um navegador no mercado?

A resposta a esta pergunta vai além do óbvio press release da empresa e da excelente história em quadrinhos. Ou, pelo menos, requer uma leitura das entrelinhas do mesmo. Vejamos primeiro onde o Google está se metendo.

Atualmente, o navegador da Microsoft, o famigerado Internet Explorer (IE), controla pouco mais de 72% do mercado mundial. Os números mudam um pouco de um país para outro e de uma análise para outra mas a diferença do IE para o segundo colocado, o Firefox da Mozilla, é tão gritante que torna-se impossível ignorar o monopólio. Graças principalmente ao seu sistema operacional Windows, a Microsoft vem conseguindo “impor” o seu navegador sem grandes dificuldades.

Isto ocorre porque navegadores são programas de computador com duas características bem distintas das de um sistema de informação ou operacional: 1) Os usuários não são necessariamente dependentes do navegador que utilizam e, em geral, 2) não se beneficiam destes programas na medida em que outros usuários começam a usá-lo também. Em gestão de negócios e economia, estas duas características referem-se, respectivamente ao “lock-in” e às “network externalities” que um produto ou serviço pode gerar.

Não há lock-in porque navegadores são a porta de entrada para algo que está além do seu controle – a web. O programa em si oferece poucos benefícios se comparados aos benefícios da web. Seu uso é intuitivo e está fortemente atrelado ao uso de sites e aplicativos de outras empresas hospedados na web. O contraste com um sistema operacional, por exemplo, fica evidente. Muitos usuários são dependentes do Windows porque dependem de outros programas que só funcionam neste sistema operacional, porque acreditam que os benefícios que o sistema oferece são os melhores, e porque não querem (com razão, na maioria dos casos) se arriscar ou passar pelo tremendo esforço de trocar de sistema. A troca, neste segundo caso, significa investimento em treinamentos, perda inicial de eficiência, e migração de dados. Nada disso se aplica aos navegadores porque a web não muda de um navegador para outro.

Além disto, não há network externalities porque os usuários não se beneficiam (pelo menos não muito) de outros usuários utilizando o mesmo navegador. É fácil perceber este benefício em outros casos, como o Windows. O fato de muitos usuários utilizarem este sistema encoraja a adoção do mesmo por novos usuários porque é esperado que eles possam ajudá-lo. Um sistema comum também facilita o intercâmbio de informações (documentos, músicas, vídeos, etc.) e a troca de experiências, aumentando ainda mais a experiência do usuário. No caso dos navegadores, seu uso funciona apenas como ponte para o uso da web e esta sim ganha força com a entrada de novos usuários. E-mail, por exemplo: O endereço eletrônico só tem valor se for possível enviar mensagens a outros usuários. E quanto maior o número de usuários, maior o seu benefício.

Navegadores, portanto, não importam! Ou, no máximo, importam pouco. O IE só é um sucesso graças ao sucesso do Windows, um monopólio de mais de 90% do mercado. O Firefox foi lançado em 2004, 4 anos atrás, é considerado um navegador muito melhor que o IE, e ainda assim amarga uma longínqua segunda colocação. Poucos sentem necessidade de trocar de navegador quando um bom o suficiente já está disponível por padrão logo após a instalação do Windows. Prova disto é o fato do Internet Explorer 6 (instalado por padrão no Windows XP) ainda ser um dos navegadores mais usados, a frente de todas as versões do Firefox juntas. No fim das contas o que importa é o acesso à web, esta sim um grande benefício.

Por esta linha de raciocínio, a entrada do Chrome no mercado não fará muita diferença. A tendência é que as posições continuem inalteradas, o que parece ser o caso até o momento. Ainda é muito cedo para afirmar, mas três dias após seu lançamento oficial na última terça-feira, o navegador ainda tem poucas chances de se consolidar. Em versão para testes (beta), seu uso tem ficado na casa do 1%. O Google, claro, sabe disso e lançou a versão também com objetivo de obter feedback dos usuários, da mesma forma que fez com o GTalk.

Entretanto, não custa lembrar que o Google também é um monopólio – e um talvez muito mais perigoso que o da Microsoft por controlar, de certa forma, o acesso à informação na web. O Google já é a 4ª maior empresa de software e serviços do mundo e 33ª colocada dentre todas as empresas (independente do setor) em termos de valor de mercado. Além disto, o Google é responsável por quase 80% de todas as buscas realizadas na web. Ou seja, ao contrário do Mozilla, o Google tem, dentre outras vantagens, muito mais poder de fogo para divulgar seu novo navegador, o que já vem fazendo ao destacar seu lançamento na sua página inicial de muitos países.

Mesmo assim, é claro que não será subitamente que a empresa virará a mesa. E não será apenas com um novo navegador que a empresa quebrará o monopólio da Microsoft. Superar uma empresa com monopólio de mercado não é uma tarefa fácil. Pode ser com regulamentação (como ocorreu com as empresas de telecomunicação não só no Brasil mas em vários outros países), com grandes doses de investimento em novos produtos e serviços (como a Dell fez para desbancar a Compaq), ou com a quebra do paradigma no qual se sustenta o monopólio.

Nesta última opção, o exemplo clássico é o monopólio das indústrias de petróleo no paradigma atual de que esta é a única fonte eficiente de combustível. Aos poucos, com novas alternativas, este paradigma vai caindo e novas empresas começam a se fortalecer no mercado. De maneira similar, a Microsoft se sustenta poderosa num paradigma de computadores PC que exigem um sistema operacional desktop para funcionarem adequadamente.

O que começa a ocorrer, no entanto, é um gradual movimento em direção a uma computação ubíqua (em qualquer lugar, de qualquer dispositivo), fortemente baseada nos aplicativos disponíveis na Internet. Neste cenário, computadores PCs poderão deixar de ser a plataforma dominante para a realização das tarefas do dia-a-dia, seja qual for o ambiente. Não é muito difícil de imaginar, por exemplo, que em breve os celulares terão poder de processamento e memória suficientes para executar os mais diversos aplicativos. E com uma interface externa para entrada (teclado, mouse, etc.) e saída (monitor, datashow, etc.) de dados, o celular passará a ser um sério candidato a substituí-lo. Outra possibilidade é a concepção de computadores que não terão mais sistemas operacionais ou apenas sistemas mínimos. Ao ligar o computador, o usuário estaria automaticamente conectado à Internet.

Com estas mudanças em curso, o Chrome, navegador do Google, poderá passar a ter mais importância. Principalmente se começar a oferecer maiores benefícios combinados a seus outros serviços, através, por exemplo, do Google Gears. Em um paradigma onde o Windows talvez deixe de ser o sistema operacional padrão (se é que existirá algum sistema operacional como conhecemos hoje), o usuário passará a ter outras opções de escolha. Assim, vencerá a empresa que conseguir oferecer primeiro seu navegador como padrão para o maior número possível de plataformas. E o Google, na vanguarda de tecnologias web, investindo em plataformas para dispositivos móveis e em frameworks para desenvolvedores, já é um favorito.

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